Uma pessoa trabalha, paga as contas, comenta o noticiário com lógica e raciocina bem sobre praticamente tudo. Num único assunto, porém, não admite dúvida: está convencida de que foi escolhida para uma missão extraordinária, de que tem poderes que ninguém mais tem ou de que ocupa um posto de importância que o mundo ainda não reconheceu.
A medicina chama o quadro de delírio de grandeza, e ele diz respeito a algo bem mais profundo do que vaidade: o modo como o cérebro interpreta a realidade e decide em que acreditar.
Delírio, no sentido médico, é uma crença equivocada mantida com enorme convicção, mesmo quando as provas contra ela são claras. No de grandeza, a certeza envolve capacidades, identidade ou importância que não existem.
Pode ser a pessoa que se acredita secretamente escolhida para um cargo político de destaque, a que se vê com poderes sobrenaturais ou a que se sente encarregada de salvar a humanidade. Quem vive isso não está mentindo nem tentando enganar ninguém. Para essa pessoa, tudo é real.
Arrogância não é delírio
Exagerar as próprias qualidades, exigir tratamento especial e reagir mal a críticas são traços de personalidade que não rompem o vínculo com os fatos. O neurologista e neurocirurgião Helder Picarelli, do Hospital das Clínicas, explica que a pessoa narcisista se julga superior e vive atrás de admiração, mas segue em contato com a realidade.
No delírio, o que se altera é a própria percepção do real. As duas condições não se equivalem, embora possam coexistir.
O psiquiatra Arthur Danila, formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e coordenador do Programa de Mudança de Hábito e Estilo de Vida do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, faz uma separação ainda mais fina, entre o delírio e a mentira.
Quem mente de propósito sabe, em alguma medida, que diz algo falso e costuma ter um motivo, como obter vantagem ou preservar uma imagem. Quem delira pode estar integralmente convencido.
Danila ressalta que nenhum gesto, expressão ou resposta isolada separa os dois casos com segurança: há mentirosos capazes de sustentar uma história por anos, com emoção convincente, e há pessoas em delírio que mentem sobre outros assuntos.
A fronteira também passa pela relação com o reconhecimento.
“Ser reconhecido por ser bom no que faz não tem nada de doentio. A doença aparece quando a pessoa não tem esse mérito e, ainda assim, se considera o melhor de todos”, afirma Arthur Guerra, coordenador do núcleo de psiquiatria do Hospital Sírio-Libanês
O cérebro não funciona como uma câmera que apenas registra o mundo. A cada instante, ele interpreta o que vemos, ouvimos e sentimos a partir de memórias, emoções e experiências anteriores, e decide o que merece atenção.
Uma das hipóteses mais estudadas é que esse sistema de atribuição de importância se desregule. Fatos corriqueiros passam a carregar um significado desproporcional, e a dopamina, substância que faz a comunicação entre os neurônios e participa da motivação e da aprendizagem, parece ter papel nesse processo.
Picarelli dá um exemplo: a pessoa encontra um semáforo quebrado, o agente de trânsito faz sinal para que ela siga em frente, e ela entende o gesto como o código para iniciar uma tarefa decisiva para salvar a humanidade. Três carros vermelhos num mesmo dia, que qualquer um chamaria de coincidência, viram mensagens endereçadas só a ela.
Danila acrescenta que uma declaração pública pode ser lida como recado cifrado, e que a falta de reconhecimento oficial costuma ser explicada como parte de uma operação secreta para proteger a verdadeira identidade da pessoa.
Os estudos de imagem apontam para circuitos que ligam a região frontal do cérebro, responsável por julgar e avaliar crenças, a estruturas profundas ligadas à motivação. Não existe, porém, uma área exclusiva do delírio de grandeza: as alterações observadas dizem respeito à psicose de modo geral.
“O delírio não é um engano de informação”, resume Danila. “O que muda é o modo como a pessoa dá sentido ao que vive e fabrica suas certezas.
Quando a ausência de provas vira prova
Em condições normais, o cérebro confronta cada convicção com as informações novas e corrige a rota quando erra. É esse ajuste que permite aprender e se adaptar. Nos quadros delirantes, o mecanismo falha: a pessoa valoriza o que parece confirmar sua crença, reinterpreta o que a contradiz e tende a chegar a conclusões precipitadas, com pouquíssima informação.
Picarelli descreve o homem convicto de ser dono de um grande banco. Diante da prova de que seu nome não consta entre os proprietários, ele responde que a identidade é mantida em segredo.
O mesmo vale para quem se diz milionário sem ter dinheiro e garante que a fortuna está num paraíso fiscal ou bloqueada por ordem de um ministro. A falta de documentos, observa Danila, deixa de ser contraprova e passa a integrar a narrativa, como indício de que existe um esquema de proteção.
Há ainda uma dimensão emocional. Quando a convicção se torna o eixo da identidade, abandoná-la equivale a perder aquilo que organiza a história pessoal e o sentimento de importância.
F: G1