O diretor do programa de emergências da Organização Mundial de Saúde (OMS), Michael Ryan, afirmou nesta segunda-feira (4) que regiões onde há pobreza devem ser priorizadas na testagem de casos de Covid-19.“Temos que assegurar que a vigilância pública e a testagem estejam acessíveis a todos aqueles que precisam”, respondeu Ryan, ao ser questionado em coletiva sobre as desigualdades sociais na pandemia. “E é muito importante que a testagem não seja vista como algo para os ricos e aqueles que podem pagar.”
Ele explicou que os testes não servem apenas para que um paciente específico receba um diagnóstico, mas, também, para saber onde o coronavírus está.
“Se as pessoas veem o propósito de testar em só receber o seu próprio diagnóstico, para poderem pagar por tratamento, então essa é uma distorção do propósito final de testar. A testagem é para duas coisas: uma é dar a oportunidade às pessoas com sintomas de serem testadas e cuidadas, mas também para ativar uma série de mecanismos para entender a transmissão do vírus”, declarou.
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Michael Ryan, diretor-executivo do programa de emergências da Organização Mundial da Saúde (OMS) — Foto: Christopher Black/OMS
“Se o acesso aos testes for determinado por recursos, vai haver um entendimento muito enviesado de onde o vírus realmente está. E isso é muito perigoso”, lembrou Ryan.”É perigoso sob uma perspectiva de saúde pública. Não só é desigual, também é perigoso.”
“É muito importante que a testagem seja disponibilizada para aqueles que precisam. E, na verdade, em alguns casos, eu acredito que a testagem deveria estar mais disponível em áreas onde as pessoas não têm a oportunidade de se distanciar fisicamente, onde podem ter maiores taxas de infecção – e também podem ter maiores taxas de mortes, se forem infectadas”, afirmou.
Em São Paulo, dados da prefeitura já apontaram que o risco de morrer por Covid-19 é 10 vezes maior nos bairros com pior condição social. Outro levantamento também constatou que pretos (conforme identificação usada no IBGE) têm 62% mais de chance de morrer pela doença do que brancos na cidade.
No Pará, o Ministério Público Federal alertou que a Covid-19 representa um risco de genocídio para a população indígena.
“Nós vimos com populações vulneráveis, vimos com minorias étnicas, vimos com populações indígenas – que elas podem ter taxas de mortalidade maiores se forem infectadas, por causa de outras condições preexistentes de muito tempo. Se deveria haver alguma diferença, a testagem deveria ser priorizada em áreas onde há pessoas desprivilegiadas, onde há aglomerações, onde há pobreza“, disse Michael Ryan.
Testes rápidos
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Agente segura amostra para ser testada para Covid-19 em Nova Déli, na Índia, nesta terça (7). — Foto: Sajjad Hussain / AFP
Ao mesmo tempo, a líder técnica da OMS, Maria van Kerkhove, alertou que é preciso ter certeza da eficácia dos testes rápidos, que detectam os anticorpos para o coronavírus, por causa de possíveis erros diagnósticos. Na semana passada, a Anvisa liberou a venda desse tipo de teste nas farmácias.
O teste que detecta o código genético do vírus, o do tipo PCR, é considerado o “padrão ouro” para diagnosticar o vírus, mas o Brasil tem tido problemas na testagem desde o início da pandemia: o país é um dos que menos faz o teste no mundo, segundo dados da Universidade de Oxford.
g1